Errico Malatesta: Estratégia e Organização na Revolução Anarquista
Errico Malatesta: Estratégia e Organização na Revolução Anarquista
Errico Malatesta (1853–1932), um dos teóricos mais influentes do anarquismo, dedicou sua vida a pensar como uma revolução libertária poderia acontecer sem trair seus princípios. Em Escritos Revolucionários, combateu tanto o reformismo quanto as tentações autoritárias dentro da esquerda, defendendo uma revolução ética, organizada e radicalmente antiautoritária. Seus textos rebatem a crítica comum de que o anarquismo carece de direção estratégica.
Essa defesa da liberdade construída “de baixo pra cima” ecoa também nas palavras de Étienne de La Boétie, que, no Discurso sobre a Servidão Voluntária, pergunta por que as pessoas consentem em ser governadas por tiranos — e afirma que a verdadeira liberdade só pode surgir do rechaço ativo às estruturas de dominação.
Princípios-Chave de Escritos Revolucionários
A Revolução como Processo, Não Evento
Malatesta rejeitava a ideia de que a revolução seria um “dia glorioso” protagonizado por uma vanguarda iluminada. Para ele, a transformação social é um processo contínuo, construído pela ação cotidiana das massas, que despertam sua consciência revolucionária na prática.
A revolução, para Malatesta, não é um simples ato de violência ou ruptura súbita, mas um longo trabalho de educação, organização e luta permanente.
Essa concepção se conecta com a noção anarquista de dualidade de poder: criar estruturas autônomas no presente enquanto se desmantela o sistema opressor.
Organização sem Autoridade
Malatesta fazia críticas tanto ao individualismo desorganizado quanto ao centralismo autoritário do marxismo. Em vez disso, propunha grupos de afinidade — coletivos horizontais baseados na confiança e ação conjunta — conectados em federações voluntárias. Dessa forma, seria possível coordenar ações em larga escala sem hierarquias coercitivas.
Como afirmou em um de seus textos, “o anarquismo vem remediar este estado de coisas com seu princípio fundamental de livre organização, criada e mantida pela livre vontade dos associados sem nenhuma espécie de autoridade.”
Esse modelo inspirou experiências como a Federação Anarquista Ibérica (FAI) e a Internacional de Federações Anarquistas (IFA).
A Importância da "Minoria Consciente"
Malatesta discordava do conceito de vanguarda autoritária, mas reconhecia a importância de uma minoria consciente de anarquistas com responsabilidade histórica. Essa minoria não deveria comandar, mas sim catalisar a ação coletiva, ajudando a:
- Mobilizar trabalhadores por meio de greves e protestos;
- Divulgar práticas de autogestão e ação direta;
- Proteger a revolução contra tentativas de restauração autoritária, seja por parte do Estado, seja por partidos “progressistas”.
Essa leitura do papel da consciência revolucionária encontra paralelos com o pensamento de Max Stirner, que via na destruição da autoridade a chave para relações verdadeiramente livres. Em uma análise sobre sua obra, lê-se:
“Queremos destruir o poder para encontrar a potência das relações puras, sem mediação.”
Ou seja, não se trata de ocupar o poder, mas de abolir sua lógica para abrir espaço à autonomia coletiva e individual.
Violência como Ferramenta, Não como Fim
Para Malatesta, a violência não é um princípio, mas um recurso defensivo. Pode ser necessária contra a opressão, mas jamais deve se tornar fundamento de um novo poder.
Ele alertava que a violência só se justifica quando serve à libertação — nunca para instaurar domínio sobre os outros.
Em Escritos Revolucionários, critica os marxistas que usaram a violência para fundar novos Estados autoritários, bem como os anarquistas pacifistas que recusavam qualquer forma de enfrentamento, mesmo em autodefesa.
Anti-Eleitoralismo e Ação Direta
Malatesta rejeitava a participação em eleições parlamentares — mesmo como “tática” — por considerar que elas reforçam a lógica da delegação e da passividade política:
Para ele, votar é abdicar da própria soberania. Quem transfere seu poder a um representante renuncia à ação direta.
A mudança real, sustentava, viria da ação direta enraizada nos locais de trabalho, nos bairros e nas comunidades, não por decretos legislativos.
Fragmentos e Sínteses do Pensamento de Malatesta
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Sobre o Perigo dos Partidos: O verdadeiro tirano é aquele que convence os oprimidos de que fala em seu nome.
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Sobre a Ética Revolucionária: Malatesta não queria o poder para si, nem aceitava que outros o tomassem em nome do povo. Sua luta era pela destruição do poder como forma de dominação.
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Sobre a Utopia Concreta: A anarquia, para ele, não era uma promessa futura, mas uma prática do presente. Cada greve, cooperativa ou ato de rebeldia era um passo real rumo à liberdade.
Atualizando o Direcionamento Anarquista
A ideia de que o anarquismo “não tem direção” ignora que, para Malatesta, a estratégia deve ser adaptável, mas os princípios são inegociáveis:
Não colaborar com o Estado, nem mesmo sob pretextos de “aliança tática”;
Priorizar a auto-organização, ao invés da tomada de instituições;
Atacar o capitalismo onde ele é mais frágil: no trabalho explorado, nas prisões e nas zonas de destruição ambiental.
“A revolução é como o fogo — não se controla, mas se alimenta.”