A Razão Como Dominação: A Construção Cultural das Emoções e a Supressão dos Corpos
A Razão Como Dominação: A Construção Cultural das Emoções e a Supressão dos Corpos
Desde o Iluminismo, a racionalidade foi elevada a um pedestal, um instrumento das elites para justificar a dominação e deslegitimar aqueles que ousassem se guiar por outros princípios. Reis, generais e empresários foram aclamados como líderes naturais porque, segundo essa narrativa, nasceram racionais. Essa mesma lógica foi usada para justificar o colonialismo, como quando Rudyard Kipling escreveu O Fardo do Homem Branco, incentivando os EUA a se lançarem na missão civilizatória. John Stuart Mill, um dos grandes nomes do liberalismo, defendia o "despotismo benevolente" britânico na Índia, pois via os colonizados como incapazes de abrir mão de seus desejos individuais em nome de algo maior. Para esses homens, povos originários e colonizados eram meras crianças barulhentas, guiadas pela emoção, assim como as mulheres no Ocidente, que deveriam ser mantidas longe da política para evitar "desordens" emocionais.
Esse pensamento embutiu duas premissas violentas: primeiro, que certas pessoas são mais emocionais do que outras; segundo, que a emoção é algo biológico e primitivo, devendo ser domado pela cultura. Em 1939, o sociólogo Norbert Elias consolidou essa narrativa com O Processo Civilizador, defendendo que a história do Ocidente era uma jornada linear, dos impulsos descontrolados à razão absoluta. Para ele, a modernidade transformou selvagens em homens, e essa transformação implicava reprimir suas emoções, domesticá-las em nome do progresso.
No entanto, antropólogos questionaram essa visão. Jean Briggs, que viveu entre os Yuku, um povo do Ártico, percebeu que o amadurecimento emocional deles era radicalmente diferente do que havia aprendido nos Estados Unidos. As crianças podiam expressar suas emoções livremente, sem repressão ou disciplina. No entanto, na vida adulta, explosões de raiva e demonstrações públicas de emoção eram socialmente inaceitáveis. O controle emocional não era uma questão de dominação, mas um princípio moral e de sobrevivência. Para os Yuku, um homem que nunca perdesse a calma poderia se tornar perigoso caso um dia explodisse de raiva.
Briggs experimentou essa cultura em carne viva. Lutando contra o frio extremo e a barreira do idioma, ela se tornou emocionalmente instável, chorando, se irritando e quebrando normas culturais. Lentamente, foi marginalizada pela comunidade e mergulhou em meses de depressão. O líder do grupo, Inuk, se destacava pelo rigor no controle de suas emoções, um autocontrole que lhe garantia respeito e liderança.
No outro extremo do mundo, na década de 1970, a antropóloga americana Catherine Lutz viveu entre os Ifaluk, um povo do Pacífico. Lá, também encontrou uma cultura onde a regulação emocional era central, mas de forma diferente. Para os Ifaluk, a emoção fago era a base da moralidade e da organização social. Algo entre compaixão, amor e melancolia, fago definia quem tinha status e respeito. Se um marido bebesse demais, sua esposa poderia dizer: "Você não tem fago por mim", denunciando sua falha moral. A pior coisa que alguém poderia ser entre os Ifaluk era estar sem parentes, pois significava perder tanto o suporte econômico quanto social. Diferente dos Yuku, onde o controle emocional era uma forma de evitar conflitos destrutivos, entre os Ifaluk, expressar fago era essencial para a coesão comunitária.
Essas culturas desmontam a visão ocidental predominante de que as emoções são universais e apenas "domadas" ou "desencadeadas" de maneira diferente. Ao contrário, emoções são profundamente construídas pela cultura e pelo ambiente. A historiadora Rob Boddice argumenta que os seres humanos não são meros "sacos de DNA" reagindo mecanicamente ao mundo, mas interpretam e moldam suas emoções com base em histórias, tabus e expectativas sociais. A psicóloga Lisa Barrett avança ainda mais, afirmando que as emoções não são entidades fixas no cérebro, mas construídas em tempo real, cada vez que as sentimos.
O que essas descobertas significam para nós? Se emoção e razão são construções culturais, então a ideia de que algumas pessoas são "irracionais" ou "emocionais demais" é uma ferramenta de opressão. A divisão entre razão e emoção tem sido usada para justificar a dominação colonial, o machismo e até a supressão de movimentos políticos e sociais que se levantam contra a ordem estabelecida. Afinal, quando os poderosos se enfurecem, estão apenas "agindo com firmeza". Quando oprimidos expressam sua raiva, são taxados de irracionais, violentos e bárbaros.
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