Capitalismo e a Epidemia da Ansiedade: Uma Crítica Anarquista
Capitalismo e a Epidemia da Ansiedade: Uma Crítica Anarquista
O capitalismo não é apenas um sistema econômico. É uma máquina de moer corpos e forjar subjetividades doentes. Exaustão e ansiedade não são desvios – são efeitos colaterais estruturais de uma lógica que exige rendimento infinito, produtividade sem limites e autoexploração disfarçada de liberdade.
Vivemos sob um regime onde o poder não mais proíbe – exige. Não mais castiga – motiva. A frase “Yes, we can!”, que antes carregava promessas de emancipação, virou um imperativo cruel: se você não consegue, a culpa é sua.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, nos mostra que deixamos para trás a sociedade da disciplina – do “não pode!” – e entramos na era da positividade, onde nasce o sujeito de desempenho: alguém que não é mais dominado por outro, mas por si mesmo. Somos ao mesmo tempo o chefe e o capataz, o explorador e o explorado. E quando colapsamos, quando não damos conta, ainda nos culpamos por isso. A isso, Han chama de violência neuronal – uma forma de violência que não vem de fora, mas brota de dentro de nós mesmos.
Ansiedade como Sintoma Sistêmico
Freud afirmou que a ansiedade é uma resposta ao perigo – real ou imaginário. No capitalismo tardio, o perigo é constante, mas difuso. Não é mais o medo do castigo divino ou da repressão estatal. É o terror cotidiano de não ser produtivo o bastante, de não atingir metas, de não ser suficiente.
Slavoj Žižek nos alerta que a ideologia contemporânea não nos impõe obediência direta, mas exige liberdade. Uma liberdade compulsória, onde somos empurrados a escolher, consumir e otimizar-nos ininterruptamente. “Seja livre! Escolha! Melhore-se!” – e, nesse ciclo, nos tornamos escravos de uma autonomia que não escolhemos.
Rollo May, em A Descoberta do Ser, distingue a ansiedade existencial (formativa, ligada à liberdade) da ansiedade neurótica (patológica, ligada à perda de sentido). Sob o capitalismo, somos reduzidos a perfis, marcas, dados e currículos. Quando o ser se dissolve em performance, o vazio se instala – e com ele, a ansiedade.
Autoexploração e a Indústria da Paliatividade
Mark Fisher, em Realismo Capitalista, denuncia um sistema que normalizou o sofrimento mental. A depressão, o burnout e a ansiedade são tratados como disfunções individuais, nunca como sintomas políticos. O capitalismo oferece paliativos: pílulas, mindfulness, aplicativos de produtividade, coaching, massagens corporativas em empresas que pagam salários miseráveis.
Fisher nos mostra que a principal vitória do capitalismo foi nos convencer de que “não há alternativa”. Se você está triste, tome remédios. Se está esgotado, faça terapia para se adaptar. Mas jamais questione a máquina. A indústria do bem-estar lucra com nosso colapso – vendendo cura para a doença que o próprio sistema produz.
Por uma Revolução Antiansiedade
O anarquismo sempre entendeu que não existe liberdade verdadeira sob a tirania do capital. Se quisermos viver sem a angústia permanente, precisamos atacar suas raízes. A ansiedade não é uma falha pessoal – é um sintoma político. E só uma transformação radical pode desativá-la.
Propostas para uma vida possível:
- Abolir a lógica da produtividade infinita – Nossa existência não deve ser medida por metas, gráficos e entregas.
- Desmantelar a indústria da autoajuda – Chega de técnicas de “gestão do estresse”. O mundo precisa deixar de ser estressante.
- Restaurar o senso de comunidade – O capitalismo nos isolou. Solidariedade não é utopia: é sobrevivência.
- Recuperar o tempo como experiência, não como recurso – A tirania do time is money nos impede de simplesmente existir.
- Descolonizar a mente e o corpo – Libertar-se do capital é também uma tarefa interna, de desprogramação e reinvenção.
Como dizia Emma Goldman, “se não posso dançar, não é minha revolução”. Uma revolução anticapitalista precisa ser também anticapitalismo psíquico. Precisamos respirar de novo – sem medo, sem culpa, sem o fantasma do fracasso sussurrando que nunca somos bons o bastante.
A revolução não será apenas nas ruas. Será dentro das nossas mentes, nos nossos afetos, nos nossos sonhos.