Não é de hoje que a esquerda brasileira vive um descompasso feio entre o que discute nos grupos de Telegram, nos artigos acadêmicos e nas rodas de militância bem intencionada e a vida real de quem pega condução lotada, enfrenta fila de posto de saúde e precisa fazer malabarismo pra pagar o aluguel. Essa distância não é barulho passageiro. É fratura estrutural. E a gente insiste em tratar como se fosse problema de comunicação, quando na verdade é problema de escuta.
A verdade é que uma parte considerável da militância assumiu uma postura de professor arrogante. O trabalhador vira aluno atrasado. As contradições que ele carrega, machismo, racismo, LGBTfobia, são tratadas como falha individual de caráter. Como se fosse culpa dele reproduzir um sistema que o esmaga todo santo dia. A gente responde com moralismo, com cancelamento, com jargão acadêmico cheio de termo em inglês. Resultado? A gente rompe os poucos fios de contato que ainda existiam.
E quem ocupa esse vazio? A extrema direita. Não porque ela seja mais inteligente ou mais correta, mas porque ela opera com a gramática simples da experiência imediata. Ela acolhe o ressentimento. Ela reorganiza o senso comum em chave autoritária. Ela fala do fim do mês enquanto a esquerda discute o fim do mundo.
Tem um fenômeno que a gente precisa encarar de frente. Vou chamar aqui de indiferença inclusiva. É uma forma de convivência das classes populares que não depende de discurso identitário explícito. O vizinho gay, a pessoa trans na borracharia, a mulher no espaço de trabalho, todo mundo coexiste sem precisar declarar categoria o tempo todo. Funciona na prática. E quando a política identitária chega demarcando território com linguagem codificada, o que era tolerado no cotidiano começa a ser sentido como privilégio. Cria uma sensação de ruptura. A escassez é compartilhada, mas a forma de nomear as opressões parece vir de outro mundo.
O ressentimento que emerge daí não é falha moral. É sintoma social. É um sujeito igualmente precarizado que não se reconhece nas pautas que ganham centralidade. E a gente, ao invés de tentar entender, trata esse ressentimento como prova de atraso ou má fé.
A esquerda errou duas vezes. Primeiro, ignorou o ressentimento. Depois, tratou ele como evidência de que o outro é burro ou reacionário por natureza. Ao fazer isso, a gente transformou a política num clube de pureza ideológica. Você precisa aderir a um pacote completo de posições pra ser aceito. Não constrói base social. Produz bolhas que só conversam com elas mesmas.
A proliferação de categorias analíticas importadas das universidades do norte global só piora a situação. Termos codificados, muitos em inglês, criam uma parede invisível. Enquanto a militância debate abstrações complexas, o trabalhador segue na urgência do fim do mês. É nesse horizonte imediato que ele organiza as prioridades. E a gente não dialoga com isso.
No plano organizativo, isso vira exigência de uniformidade. Todo mundo tem que ser o herói, o líder completo, o militante que dá conta de tudo. A gente esqueceu que movimento de massa não se faz com homogeneidade. Se faz com articulação de diferentes formas de atuação. Quem é bom na rua vai pra rua. Quem é bom na comunicação vai pra comunicação. Quem é bom no boteco vai pro boteco. Mas a gente insiste numa única forma legítima de militância e compromete a própria expansão.
A reconstrução de uma estratégia efetiva passa pela reocupação dos espaços de sociabilidade primária. O boteco, a barbearia, o ponto de ônibus, o chão de fábrica. Mas não como lugar de doutrinação. Como território de escuta. Como construção de vínculo. Conversar com o senso comum não significa validar ele sem crítica. Significa criar pontas de contato por onde seja possível deslocar percepções aos poucos, reorganizar afetos no ritmo que a vida concreta permite.
A gente precisa trocar a arrogância do esclarecimento pela humildade da escuta. E isso não é abrir mão dos princípios. É reconhecer que transformação social não se dá por imposição discursiva. Se dá por vínculo gradual. Ideia nova circula onde tem confiança. E confiança não se decreta. Se constrói no tempo compartilhado.
Ignorar o ressentimento, negar a complexidade da convivência ou insistir em modelos comunicacionais desconectados da realidade só reforça nosso isolamento político. A encruzilhada é prática. Permanecer no conforto da correção discursiva é aceitar a irrelevância como destino. Enfrentar o desconforto do mundo real exige abrir mão do pedestal e reentrar no conflito vivo da sociedade.
Entre estar certo e ser ouvido, a história mostra que apenas uma dessas posições é capaz de produzir mudança.
E essa talvez seja a tarefa mais difícil para uma esquerda acostumada ao purismo. Abandonar a ilusão de pureza para voltar a disputar o mundo como ele é, com todas as contradições sujas e desconfortáveis. Não como a gente gostaria que fosse.
O boteco tá vazio. A borracharia tem outra conversa. O ponto de ônibus virou território de whatsapp da extrema direita. A gente pode continuar reclamando disso na bolha ou pode descer do salto e sentar no banco de madeira pra ouvir o que ninguém mais quer ouvir.
Publicado em 14/04/2026
Você já sentiu que a vida é uma oscilação entre querer algo que não tem e, depois que consegue, se entediar com o que conquistou? Schopenhauer descreveu isso no século XIX. A vida como um pêndulo entre a dor da falta e o tédio da satisfação. Parece familiar, não é?
O problema não está no diagnóstico. Está no que ele faz com ele.
Schopenhauer parte de uma ideia radical. O mundo que a gente conhece não é o mundo em si. Tudo que aparece é filtrado pelas nossas formas de percepção. Tempo, espaço, causalidade. A gente nunca toca a essência das coisas. Por trás da representação, há uma força cega, um impulso incessante que ele chama de vontade. E essa vontade se manifesta como desejo, falta, sofrimento.
Até aí, tudo bem. É um bom antídoto contra o otimismo barato das promessas de felicidade eterna.
Mas aí vem o problema. Ao universalizar essa vontade como fundamento de tudo, Schopenhauer naturaliza o sofrimento. Ele vira destino. Coisa da condição humana. E ponto.
Uma leitura anarquista não pode aceitar isso sem um grande porém.
O sofrimento não é apenas metafísico. Ele é organizado socialmente.
Freud entra em cena
Freud avança nessa direção. Ele desloca a análise para a cultura. A civilização, enquanto aparato de controle, não apenas protege o indivíduo. Ela o mutila. A renúncia aos instintos, a internalização da culpa, a formação do superego. Tudo isso constitui um regime de autovigilância permanente.
O sujeito moderno não precisa mais de um soberano externo. Ele se torna seu próprio carcereiro.
Essa interiorização da autoridade é o triunfo mais sofisticado do poder. A moral não é transcendental. É um dispositivo disciplinar. A culpa não é um dado natural. É uma tecnologia psíquica. O indivíduo aprende a desejar aquilo que o oprime e a reprimir aquilo que poderia libertá lo.
O resultado é um paradoxo estrutural. Quanto mais avançada a civilização, mais refinadas as formas de sofrimento.
O que Schopenhauer identifica como vontade cega, Freud traduz como economia pulsional regulada. O que ambos deixam em aberto, e que uma perspectiva anarquista precisa explicitar, é que essa regulação não é neutra. Ela serve à reprodução de formas específicas de organização social. Estado, mercado, família normativa.
A chamada busca pela felicidade se torna um mecanismo de captura.
O capitalismo pegou o diagnóstico e otimizou
No capitalismo contemporâneo, o diagnóstico schopenhaueriano atinge um grau quase obsceno de evidência. O desejo é constantemente produzido e frustrado em ciclos acelerados. O consumo não satisfaz. Ele reinscreve a falta. A felicidade não é negada. Ela é prometida indefinidamente como mercadoria futura.
Isso não é acidente. É gestão industrial da insatisfação.
Freud já apontava que a civilização exige a repressão da agressividade. O que ele não antecipou completamente é que essa agressividade, quando recalcada, retorna sob formas socialmente úteis ao sistema. Competição, autoexploração, ressentimento difuso. O sujeito não destrói a estrutura que o oprime. Ele se destrói tentando se adequar a ela.
Daí o esgotamento contemporâneo que a gente discutiu no último post.
O humano ampliado, mas não liberto
A figura do deus de próteses, como alguém chamou o ser humano aumentado pela tecnologia, explicita o impasse. Potência técnica crescente, miséria existencial persistente. A tecnologia não liberta porque está inscrita em uma lógica de dominação. Ela amplia capacidades, mas não altera a estrutura que define como essas capacidades serão utilizadas.
Você pode ter o mundo no bolso. Continua exausto, ansioso e sozinho.
O anarquismo, nesse contexto, não é uma utopia ingênua de harmonia natural. É uma crítica radical à organização institucional do sofrimento.
Se a vontade é conflito, a questão não é eliminá la. Isso seria ascetismo, fuga do mundo. A questão é desorganizar as formas sociais que canalizam esse conflito para a dominação. Se a civilização produz culpa e repressão, o problema não é abolir toda forma de convivência. É recusar estruturas hierárquicas que dependem da mutilação psíquica para se sustentar.
A compaixão não basta
Schopenhauer propunha uma saída pela ética da compaixão. Reconhecer no outro a mesma essência que nos atravessa. É bonito. É potente. Mas sem uma crítica das instituições, essa compaixão permanece abstrata. Você pode sentir pelo outro e continuar vivendo numa estrutura que o esmaga.
O anarquismo radicaliza a compaixão. Não basta reconhecer o outro. É preciso transformar as condições materiais que produzem a dor dele.
A arte, por sua vez, aparece como suspensão da vontade. Um instante de silêncio no ruído do desejo. Um concerto, um livro, um quadro, um piquete que vira ato. Mas, isolada, a arte é insuficiente. Pode anestesiar sem libertar. Pode ser cooptada como mercadoria estética. A potência da arte só se realiza plenamente quando articulada a práticas de ruptura.
Que sofrimento a gente aceita?
A questão final não é se podemos escapar do sofrimento. A questão é que tipo de sofrimento a gente aceita.
O sofrimento como dado metafísico é inevitável. Nascer, envelhecer, perder quem se ama, morrer. Isso não tem jeito.
O sofrimento como produto social é negociável. E portanto combatível. Fome, humilhação, exploração, jornadas exaustivas, solidão induzida, ansiedade fabricada. Isso tem dono. Tem estrutura. Tem história.
Entre a resignação schopenhaueriana, que diz que sofrer é da natureza das coisas, e a adaptação freudiana, que nos ensina a conviver melhor com a própria neurose, o anarquismo propõe uma terceira via.
Não negar a tragédia da existência. Mas recusar as formas históricas que a tornam ainda mais insuportável.
A lucidez, aqui, não conduz à passividade. Ela exige ruptura.
E agora?
O que fazer com isso? Não tem receita. Mas tem direção.
Desconfiar da promessa de felicidade que vem de cima. Recusar a culpa que não foi merecida. Organizar coletivamente o descanso, a raiva, a recusa. Desaprender a produtividade como valor supremo. Redescobrir o prazer que não passa pelo consumo.
E lembrar sempre. O sofrimento que você sente na pele não é só seu. É político. E o que foi produzido politicamente pode ser desfeito politicamente.
Sigamos. Com lucidez, sem resignação. E com a raiva bem guardada para quando a compaixão sozinha não for suficiente.
Publicado em 09/02/2026