A Lua não salvará ninguém.

Expedições lunares voltaram a ocupar o centro do noticiário científico. A missão Artemis 2, com seus quatro astronautas e suas imagens de alta resolução, reacendeu um debate que parecia adormecido desde os tempos da Guerra Fria. O que está em jogo, no entanto, não é apenas a curiosidade científica ou o espírito de aventura. Há uma operação mais profunda em curso.

Toda grande expedição espacial contemporânea nasce como propaganda. Não no sentido redutor de mera mentira, mas no sentido estrutural de produção de narrativa legitimadora. O que se vende não é apenas o espetáculo. Vende se uma ideia específica sobre o futuro. A ideia de que a exploração e mineração de corpos celestes nos conduzirá a uma era de pós escassez.

Este é um argumento que precisa ser examinado com cuidado. Ele não é ingênuo. Ele é funcional.

O mito da pós escassez como ideologia

A tese é conhecida. Asteroides contêm toneladas de metais raros. A superfície lunar possui hélio 3, um isótopo que poderia alimentar reatores de fusão por séculos. Se a humanidade for capaz de extrair esses recursos, a escassez material estaria superada. Energia limpa e abundante. Matéria prima inesgotável. O fim dos conflitos por recursos.

É uma imagem sedutora. E é profundamente falsa.

A falsidade não está nos dados técnicos. É provável que tais recursos existam. A falsidade está na suposição implícita de que a tecnologia resolve por si mesma o que é, na verdade, um problema político. A escassez que se experimenta nas sociedades capitalistas não é primariamente técnica. É uma escassez administrada, produzida e reproduzida por relações sociais específicas.

Considere um exemplo elementar. O século XX assistiu a um enorme avanço na engenharia de alimentos. As técnicas de produção, conservação e distribuição de comida atingiram um grau de sofisticação tal que é tecnicamente possível alimentar toda a população do planeta. Mesmo assim, milhões de pessoas passam fome todos os dias. Não falta comida. Falta distribuição. A comida não chega a quem precisa porque acessá la exige pagamento. A fome não é um fenômeno de escassez real. É um fenômeno de exclusão pelo preço.

O mesmo raciocínio se aplica à habitação. Há prédios vazios em todas as grandes cidades. Imóveis inteiros aguardando valorização enquanto seres humanos dormem nas ruas. Latifúndios improdutivos coexistem com famílias sem terra. Não há falta de espaço. Há propriedade privada e especulação.

A chamada pós escassez, portanto, não é um horizonte técnico. É um horizonte político. Ela só seria possível mediante uma reorganização radical das relações de propriedade e distribuição. Não virá de um asteroide.

Quem se beneficia do discurso da abundância futura

O discurso da pós escassez espacial não é neutro. Ele serve a interesses muito concretos. As mesmas corporações que financiam a exploração espacial são aquelas que lucram com a escassez na Terra. Bilionários do setor tecnológico, conglomerados aeroespaciais, complexos militares industriais.

É um erro elementar supor que tais agentes estejam interessados em superar a escassez. A posição que ocupam na estrutura social depende da escassez. Bilionários existem porque acumularam riqueza que outros não puderam acumular. Porque controlam recursos que outros não podem acessar. Porque extraem valor do trabalho alheio.

Tornar esses agentes ainda mais ricos não é o começo de um mundo melhor. É o aprofundamento das desigualdades existentes. Expandir a mineração para o espaço não significa substituir a exploração terrestre. Significa acrescentar uma nova fronteira. A mesma lógica extrativista que devasta florestas, contamina rios e explora trabalhadores se reproduzirá fora do planeta. Sem a mesma capacidade de fiscalização e resistência.

Além disso, a mineração espacial inaugura uma nova camada de conflitos. Quem é o dono da lua? Quem tem direito de minerar um asteroide? Os tratados internacionais existentes são vagos e desprovidos de mecanismos de sanção efetivos. A história sugere que, diante de recursos valiosos, a resposta será a mesma de sempre. Quem chega primeiro leva. E quem tem mais poder de fogo defende.

Jorge Bataille e a crítica da utilidade

É neste ponto que a reflexão de Jorge Bataille se mostra extraordinariamente útil. O pensador francês desenvolveu, ao longo de sua obra, uma noção que raramente é levada a sério nos debates correntes. A noção de dispêndio.

Bataille observou que a vida humana não se reduz à reprodução das necessidades básicas. Comer, dormir, abrigar se do frio. Isso é o mínimo. Mas a humanidade sempre fez muito mais do que o mínimo. Pintou as paredes das cavernas. Ergueu monumentos que não serviam a nenhuma função prática. Organizou festas que consumiam recursos de forma deliberadamente excessiva. Subiu montanhas sem outro objetivo senão chegar ao topo.

A essa dimensão da existência que excede a lógica da utilidade, Bataille chamou de dispêndio. Desperdício. Exuberância. Aquilo que não se justifica por um ganho futuro, mas que se realiza como pura perda, puro prazer, puro gesto simbólico.

E Bataille não via isso como desvio ou falha. Via como o que há de mais propriamente humano. A capacidade de fazer o que não precisa ser feito. De gastar o que não precisa ser gasto. De desejar o que não é necessário.

A exploração espacial, vista sob essa ótica, pertence inteiramente ao domínio do dispêndio. Colocar seres humanos em um foguete, enviá los à Lua, fazê los retornar. Isso não é útil no sentido imediato. Não resolve fome, não constrói casas, não cura doenças. É um gesto exuberante. Um ato de excesso. E não há nada de errado nisso.

O problema surge quando esse gesto é recoberto por uma racionalização teleológica. Quando se afirma que a corrida espacial é boa porque gera tecnologias úteis. Quando se justifica o dispêndio pela sua suposta utilidade futura. Quando se esconde o prazer por trás de um cálculo de custo benefício.

A guerra, o avanço tecnológico e a falácia da justificativa

O mesmo argumento já foi empregado para justificar guerras. Houve enormes avanços tecnológicos associados aos conflitos bélicos do século XX. Microfones portáteis, câmeras sincronizadas, aviação, radar, computação. Tudo isso se desenvolveu em contexto de guerra.

Mas ninguém em sã consciência defende que se promova uma guerra para gerar avanço tecnológico. A relação é acidental, não causal. A guerra é destrutiva em si mesma. Que efeitos colaterais positivos possam ser encontrados não a justifica.

O mesmo raciocínio se aplica à exploração espacial. Que ela gere spin offs tecnológicos é verdade. Que esses spin offs tenham aplicações úteis também é verdade. Fotografia digital, velcros, alimentos liofilizados. Mas isso não é uma justificativa. É um efeito colateral.

Justificar a exploração espacial por seus supostos benefícios práticos é um equívoco categorial. O dispêndio não precisa de justificativa. Ele é sua própria justificativa. O prazer de ver um foguete subindo, a admiração diante da imagem da Terra vista do espaço, a curiosidade que não busca retorno material. Isso já é suficiente.

O discurso da utilidade, ao contrário, corrompe essa dimensão do dispêndio. Ele submete o gesto humano à lógica do capital. Transforma a curiosidade em investimento. Converte a beleza em propaganda.

A ciência não é neutra

Não se trata, evidentemente, de negar valor à ciência ou à exploração espacial. Trata se de recusar a falsa neutralidade com que tais empreendimentos costumam ser apresentados.

A ciência não flutua acima das relações sociais. Ela é produzida por agentes situados, com interesses específicos, financiada por instituições que respondem a lógicas de poder. A pergunta relevante não é se um foguete é capaz de chegar à Lua. A pergunta é quem paga pelos trilhos, quem opera a locomotiva, para onde ela está indo e quem se beneficia da viagem.

Um astronauta que faz uma reflexão cristã antes de adentrar o lado oculto da Lua não está apenas exercendo sua fé pessoal. Está participando de um dispositivo simbólico que mescla religião, ciência e patriotismo. Da mesma forma, um bilionário que financia viagens espaciais não está apenas investindo em tecnologia. Está consolidando sua posição na hierarquia global do poder.

A exploração espacial é um campo de disputa como qualquer outro. E o discurso da pós escassez é uma das armas nessa disputa. Ele desvia a atenção das desigualdades presentes para uma promessa futura. Ele naturaliza a continuidade das mesmas relações de propriedade e exploração. Ele apresenta como solução técnica o que exigiria transformação política.

Conclusão

Não há razão para condenar a exploração espacial em si. O dispêndio humano, a exuberância simbólica, a curiosidade desinteressada são dimensões valiosas da existência. Ver um foguete subindo, contemplar as imagens da superfície lunar, maravilhar se diante da vastidão do cosmos. Isso tem valor. Não um valor utilitário, mas um valor imanente.

O que merece crítica é a ideologia que reveste esse dispêndio de uma racionalidade espúria. A crença de que a mineração espacial conduzirá a uma era de pós escassez não é um otimismo ingênuo. É uma mistificação que serve a interesses concretos.

Enquanto houver gente passando fome na Terra com comida disponível, enquanto houver gente dormindo na rua com imóveis vazios, qualquer discurso sobre pós escassez no espaço é, no mínimo, suspeito. A escassez que nos aflige não é resultado de limitação técnica. É resultado de organização social baseada na propriedade privada, no lucro e na exploração.

A Lua não vai nos salvar desse problema. Só a reorganização política e econômica da sociedade pode fazer isso. O resto é propaganda.

Publicado em 10/04/2026

O sofrimento não é destino.

Você já sentiu que a vida é uma oscilação entre querer algo que não tem e, depois que consegue, se entediar com o que conquistou? Schopenhauer descreveu isso no século XIX. A vida como um pêndulo entre a dor da falta e o tédio da satisfação. Parece familiar, não é?

O problema não está no diagnóstico. Está no que ele faz com ele.

Schopenhauer parte de uma ideia radical. O mundo que a gente conhece não é o mundo em si. Tudo que aparece é filtrado pelas nossas formas de percepção. Tempo, espaço, causalidade. A gente nunca toca a essência das coisas. Por trás da representação, há uma força cega, um impulso incessante que ele chama de vontade. E essa vontade se manifesta como desejo, falta, sofrimento.

Até aí, tudo bem. É um bom antídoto contra o otimismo barato das promessas de felicidade eterna.

Mas aí vem o problema. Ao universalizar essa vontade como fundamento de tudo, Schopenhauer naturaliza o sofrimento. Ele vira destino. Coisa da condição humana. E ponto.

Uma leitura anarquista não pode aceitar isso sem um grande porém.

O sofrimento não é apenas metafísico. Ele é organizado socialmente.

Freud entra em cena

Freud avança nessa direção. Ele desloca a análise para a cultura. A civilização, enquanto aparato de controle, não apenas protege o indivíduo. Ela o mutila. A renúncia aos instintos, a internalização da culpa, a formação do superego. Tudo isso constitui um regime de autovigilância permanente.

O sujeito moderno não precisa mais de um soberano externo. Ele se torna seu próprio carcereiro.

Essa interiorização da autoridade é o triunfo mais sofisticado do poder. A moral não é transcendental. É um dispositivo disciplinar. A culpa não é um dado natural. É uma tecnologia psíquica. O indivíduo aprende a desejar aquilo que o oprime e a reprimir aquilo que poderia libertá lo.

O resultado é um paradoxo estrutural. Quanto mais avançada a civilização, mais refinadas as formas de sofrimento.

O que Schopenhauer identifica como vontade cega, Freud traduz como economia pulsional regulada. O que ambos deixam em aberto, e que uma perspectiva anarquista precisa explicitar, é que essa regulação não é neutra. Ela serve à reprodução de formas específicas de organização social. Estado, mercado, família normativa.

A chamada busca pela felicidade se torna um mecanismo de captura.

O capitalismo pegou o diagnóstico e otimizou

No capitalismo contemporâneo, o diagnóstico schopenhaueriano atinge um grau quase obsceno de evidência. O desejo é constantemente produzido e frustrado em ciclos acelerados. O consumo não satisfaz. Ele reinscreve a falta. A felicidade não é negada. Ela é prometida indefinidamente como mercadoria futura.

Isso não é acidente. É gestão industrial da insatisfação.

Freud já apontava que a civilização exige a repressão da agressividade. O que ele não antecipou completamente é que essa agressividade, quando recalcada, retorna sob formas socialmente úteis ao sistema. Competição, autoexploração, ressentimento difuso. O sujeito não destrói a estrutura que o oprime. Ele se destrói tentando se adequar a ela.

Daí o esgotamento contemporâneo que a gente discutiu no último post.

O humano ampliado, mas não liberto

A figura do deus de próteses, como alguém chamou o ser humano aumentado pela tecnologia, explicita o impasse. Potência técnica crescente, miséria existencial persistente. A tecnologia não liberta porque está inscrita em uma lógica de dominação. Ela amplia capacidades, mas não altera a estrutura que define como essas capacidades serão utilizadas.

Você pode ter o mundo no bolso. Continua exausto, ansioso e sozinho.

O anarquismo, nesse contexto, não é uma utopia ingênua de harmonia natural. É uma crítica radical à organização institucional do sofrimento.

Se a vontade é conflito, a questão não é eliminá la. Isso seria ascetismo, fuga do mundo. A questão é desorganizar as formas sociais que canalizam esse conflito para a dominação. Se a civilização produz culpa e repressão, o problema não é abolir toda forma de convivência. É recusar estruturas hierárquicas que dependem da mutilação psíquica para se sustentar.

A compaixão não basta

Schopenhauer propunha uma saída pela ética da compaixão. Reconhecer no outro a mesma essência que nos atravessa. É bonito. É potente. Mas sem uma crítica das instituições, essa compaixão permanece abstrata. Você pode sentir pelo outro e continuar vivendo numa estrutura que o esmaga.

O anarquismo radicaliza a compaixão. Não basta reconhecer o outro. É preciso transformar as condições materiais que produzem a dor dele.

A arte, por sua vez, aparece como suspensão da vontade. Um instante de silêncio no ruído do desejo. Um concerto, um livro, um quadro, um piquete que vira ato. Mas, isolada, a arte é insuficiente. Pode anestesiar sem libertar. Pode ser cooptada como mercadoria estética. A potência da arte só se realiza plenamente quando articulada a práticas de ruptura.

Que sofrimento a gente aceita?

A questão final não é se podemos escapar do sofrimento. A questão é que tipo de sofrimento a gente aceita.

O sofrimento como dado metafísico é inevitável. Nascer, envelhecer, perder quem se ama, morrer. Isso não tem jeito.

O sofrimento como produto social é negociável. E portanto combatível. Fome, humilhação, exploração, jornadas exaustivas, solidão induzida, ansiedade fabricada. Isso tem dono. Tem estrutura. Tem história.

Entre a resignação schopenhaueriana, que diz que sofrer é da natureza das coisas, e a adaptação freudiana, que nos ensina a conviver melhor com a própria neurose, o anarquismo propõe uma terceira via.

Não negar a tragédia da existência. Mas recusar as formas históricas que a tornam ainda mais insuportável.

A lucidez, aqui, não conduz à passividade. Ela exige ruptura.

E agora?

O que fazer com isso? Não tem receita. Mas tem direção.

Desconfiar da promessa de felicidade que vem de cima. Recusar a culpa que não foi merecida. Organizar coletivamente o descanso, a raiva, a recusa. Desaprender a produtividade como valor supremo. Redescobrir o prazer que não passa pelo consumo.

E lembrar sempre. O sofrimento que você sente na pele não é só seu. É político. E o que foi produzido politicamente pode ser desfeito politicamente.

Sigamos. Com lucidez, sem resignação. E com a raiva bem guardada para quando a compaixão sozinha não for suficiente.

Publicado em 09/02/2026

Ideologia: A Máquina de Ilusões do Capital

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Publicado em 20/04/2025

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Mas Schleuning nos convida a olhar para esse desejo com desconfiança. E se essa fantasia de “libertação pelo ócio” for, na verdade, uma armadilha? E se o verdadeiro caminho para a liberdade não estiver na abolição do trabalho, mas em sua transformação radical — na retomada de seu sentido humano, comunitário e criativo?

O que ela propõe é uma virada de perspectiva: não fugir do trabalho, mas recuperar o controle sobre ele. Este ensaio explora as ideias mais provocativas de Schleuning, articulando-as em torno de uma distinção crucial — a diferença entre a labuta e o bom trabalho. A partir dessa chave, compreenderemos por que o problema não é o esforço em si, mas o sistema que o esvazia de sentido.


Publicado em 28/01/2025

O Complexo Industrial Prisional

O sistema prisional não existe para "reabilitar" ou "proteger a sociedade" — ele é uma máquina de controle social e exploração econômica. O chamado Complexo Industrial Prisional (CIP) revela como o Estado e o capital se beneficiam do encarceramento em massa, transformando corpos marginalizados em mercadoria.

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Se há um conceito psicanalítico que ecoa como uma navalha na carne da experiência cotidiana, esse conceito é o gozo em Lacan. E não é à toa que ele é um dos mais discutidos e debatidos na psicanálise: ele revela algo profundamente incômodo sobre nós mesmos e sobre o mundo em que vivemos.

Publicado em 04/01/2025

A Psicopolítica e a Servidão Voluntária: Notas para uma Resistência Anarquista

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Publicado em 02/12/2024

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Este é o triunfo final e mais perverso da biopolítica: a internalização completa do mecanismo de exploração. O projeto anarquista clássico, centrado na luta contra um opressor identificável – o Estado, o Capital, o Patrão – vê-se diante de um novo e mais insidioso inimigo: o sujeito de rendimento. A liberdade, gritada como mantra pelo neoliberalismo, revela-se aqui em sua nudez obscena: é a liberdade de se explorar até o colapso neuronal. A coerção não desapareceu; tornou-se idêntica à própria noção de liberdade. Este é o cerne da nova servidão voluntária.


Publicado em 11/10/2024

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Publicado em 24/06/2024